Crônica - O Telefonema Gratuito
- Gabriel Sousa

- Jul 8, 2025
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Numa cidade pouco movimentada, bem pacata para falar a verdade, ironicamente havia barulhos de todos os tipos em sua avenida principal. Desde carros e ônibus até gritarias que davam para conferir e ouvir a uns quatro quarteirões de distância. Nesta cidade, tumultos graves não eram um problema, mas justamente estes pequenos desencontros a tornavam paradisíaca, embora seus moradores não percebessem isso. Pois, na realidade, a cidade era linda.
Pois bem, tudo estava em seus conformes até que o município decidiu inaugurar uma máquina, talvez um passatempo para adultos e crianças, ou até mesmo algo maligno, que veio apenas para gerar, sim, um clima mais ardente por lá. Mas era nada mais, nada menos do que um mero telefone. Por incrível que pareça, este foi um espanto para a pequena população da cidade, já que este município nunca teve a oportunidade de presenciar algo tão raro – de um ponto de vista dos moradores –, mas que, em todas as demais cidades, o telefone era algo comum; para eles, indubitavelmente inovador.
Passaram-se dias, semanas, chegando até quase trinta dias desde a inauguração deste meio de comunicação modesto ao povoado. Em uma ocasião, porém, alguém de novo havia chegado na cidade. O seu jeito soava estranho, cabelos extremamente alisados, pele branca como uma fina folha de papel, e sobretudo, um olhar desconfiado que assustou a maioria das pessoas da rua principal. Enfim, este rapaz estava, mesmo com uma aparência astuta, buscando informações, afinal, havia acabado de chegar no local, onde seus amigos indicaram a ele essa visita ao município.
O jovem andou por algum tempo, não muito, mas também não tão pouco. Então, deparou-se com a tão moderna cabine, onde havia o tal telefone. Essa descoberta foi ótima para ele, que já tinha se acostumado com isso em sua cidade, obviamente mais desenvolvida – embora, não tão bela assim –. Ao entrar, já procurou em sua lista de contatos um número para que ele pudesse rapidamente discar. No entanto, bastou-se apenas a sua rapidez ao entrar na cabine para chamar a atenção de todos. E, na mente de todos que estavam ali, esse rapaz só poderia ser uma coisa, um maluco. Ao escutar batidas no denso vidro da cabine telefônica, discou o número e simplesmente ignorou a ira de todos.
Quanto ao tal telefonema, era gratuito, pois lembremos das condições tecnológicas precárias da pequena e pacata cidade. Ao iniciar a chamada, uma voz totalmente estranha surgiu, e começou a falar com ele. Já apavorado, hesitou em desligar. Para a surpresa dele, esse informante trilhou uma interessante conversa, era uma espécie de retrocesso para o passado, especialmente por causa daquela cidade. Ele lhe contou como o município funcionava, incluindo também os diferentes e estranhos tipos de automóveis que passavam pela maior avenida, onde, inclusive, estava situado o tal telefone.
Tudo aquilo foi um enorme choque para ele, é evidente. Mas o jovem decidiu, ao terminar seus quinze minutos de telefonema, sair daquela cabine e partir rapidamente para o hotel onde decidiu ficar – que, por sinal, ficava próximo de lá –. Ao subir para seu quarto individual, refletiu sobre diversas coisas. Entre elas, estavam interrogações como saber quem ele realmente era, se a sociedade era aceita por ele, ou simplesmente ele não aceitava a si próprio. Mas foi um grande achado, depois de ter procurado destinos em sua internet com afinco, sempre sem se decidir em qual cidade iria. Sem contar que o pensamento e reflexão mais profunda que teve naquela noite, foi o fato de amigos próximos terem sugerido esta bela cidade.
E convenhamos, esta sugestão foi maravilhosa.







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