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Crônica - Uma Normalidade Exaustante

  • Writer: Gabriel Sousa
    Gabriel Sousa
  • May 4, 2025
  • 3 min read

Num belo pôr do sol, que era sempre sua oportunidade de ter ao menos um suspiro de alívio, mesmo que não conhecesse nenhum cidadão fora de quatro muros o cercando, foi ao mirante que havia em sua cidade, e resolveu tirar certas fotografias, algumas suas, outras da belíssima paisagem que o rodeava. Cansado de remoer falsos sentimentos que tinha em seu peito, decidiu ir rumo à sua residência logo após as tão desejadas fotografias.



Pois bem, a vida desse rapaz nunca foi de riqueza ou luxúria, mas tão pouco foi de, no mínimo, pobreza. Ele simplesmente era recluso, mas com uma espécie de paranoia, que, infelizmente, o perseguia por tantos anos interruptos. Ao chegar em casa, retirou os retratos de sua câmera, relembrou o seu perambulado que fez naquele dia, e dedicou-se apenas ao seu maior e preferido passatempo, a leitura. Tais livros que tinha, além de serem aproximadamente oito ou nove, eram simplesmente sobre o que há de maior interesse à juventude daquela época. Afinal, ele tinha acabado de completar quinze anos de idade.


Foi então que, em meio a toda sua falta de consenso, dormiu naquela noite apenas pensando em qual livro poderia ler, quais outros retratos poderia fazer, ou até mesmo qual traquinagem poderia bolar no dia seguinte. Pois era realmente um descaso de vida, que para ele, tudo isso não passava de normalidades. O seu ego, como é de se esperar, era imenso. Não havia qualquer pretexto, penumbra ou até alguma lição de moral que desse jeito nesta situação. Até que, enfim, mais um final de semana havia chegado, já era de manhã.


Ao acordar, segurou aquelas fotografias e decidiu colá-las em sua parede – entupida de futilidades, por sinal –. E se já não bastasse o seu terrível ego, era imensamente consumista. A ponto de comprar vasos de jardim por mais de trezentos cruzados. Assim, rapidamente tomou o seu café da manhã, se vestiu, e voltou ao seu quarto. Mas o que ninguém esperava, nem seus próprios pais ou sua irmã, era que ele saísse exatamente num sábado, dia este que ele reservava para escrever cartas ou bilhetes, cujos textos ele guardava consigo mesmo. No entanto, saiu pela porta dos fundos, e saiu pela cidade afora.


Ao chegar em frente a uma loja de aparelhos eletrônicos – que, no final dos anos 90, eram quase inexistentes –, surpreendeu-se com um leve e pequeno relógio. Ao se aproximar e finalmente entrar na loja, imediatamente perguntou ao atendente o valor. Após ficar exuberantemente chocado com o que ouviu, decidiu perguntar ao mesmo vendedor o real motivo de tamanha pequenez, já que, ao manuseá-lo, descobriu que no tal relógio haviam muitas novas funcionalidades, até pouco prováveis para o ano de 1999. E assim, não pensou duas vezes, ele o levou, chegou a pagar aquele valor que o chocou, e encantado com tal produto, voltou para casa, ao final da tarde, após ter passado praticamente sete horas fora de sua casa.


Ao abrir a porta da frente, não chegou a ver seus pais, pois, por tanta coincidência, estavam todos sentados ao fundo. Então, chamou a sua irmã mais nova para que pudessem conversar, principalmente pelo distinto dia de sábado que havia passado longe de sua família. Sua irmã, embora ainda criança, porém preocupada, decidiu ficar em silêncio, apenas a ouvir o que seu irmão tinha para lhe dizer.


Naquela tarde, conversaram por bastante tempo, e em determinado momento, ele não hesitou, e disse a ela: “nossas principais atrações são aquelas que vem em pequena proporção”, o que serviu para encerrar a bela conversa em que os dois puderam ter.


E ao dormir, ele apenas pensou nesta conversa, no primeiro sábado em que passou fora de casa, e claro, no tão inovador relógio. Creio que isto deve ter sido um alerta e tanto para sua vida.

 
 
 

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